Congresso Mundial dos Arquitetos 2023, em Copenhagen
Imagem Interna - Congresso Mundial dos Arquitetos 2023, em Copenhagen

Texto: Amanda Ferber. Fotos: Divulgação.

Em julho de 2023, tive a incrível oportunidade de participar do UIA, Congresso Mundial de Arquitetos, realizado em Copenhagen, capital da Dinamarca, que, neste ano, inclusive, foi nomeada a capital da arquitetura pela UNESCO, tornando a edição de 2023 ainda mais especial. Esse evento de prestígio, que ocorre a cada três anos em diferentes cidades do mundo, celebrou a arquitetura de maneira grandiosa, unindo arquitetos e entusiastas da área do mundo inteiro.

O tema central do UIA 2023 foi “Futuros Sustentáveis – Não Deixe Ninguém Para Trás”, abordando como a arquitetura pode desempenhar um papel fundamental na construção de um futuro mais sustentável, equitativo e inclusivo. Os eventos e palestras foram agrupados em seis temas-chave: adaptação climática, repensar os recursos, comunidades resilientes, saúde, inclusão e parcerias para a mudança.

Nesse contexto inspirador, tive a chance de assistir a palestras de arquitetos renomados, como Bjarke Ingels, fundador do BIG e arquiteto dinamarquês de renome. Ele apresentou a intrigante ideia de “sustentabilidade hedonista”, sugerindo que é possível sim viver de maneira sustentável e, ao mesmo tempo, melhorar nossa qualidade de vida. Isso porque existe um grande estereótipo da arquitetura sustentável sempre atrelada à escassez, a recursos menos esteticamente interessantes, enquanto ele acredita – e prova, através de seu trabalho, quão possível é mergulhar no design sustentável com soluções não apenas ecológicas, mas harmoniosas.

Bjarke Ingels também compartilhou os objetivos ambiciosos da sua nova fundação, “Plan for the Planet”, que busca abordar obstáculos globais em áreas como energia, transporte, indústria e recursos naturais. Uma das palestras mais emocionantes foi a de Francis Kéré, arquiteto de Burkina Faso que se tornou o primeiro africano a receber o Prêmio Pritzker, a maior honraria da arquitetura. Sua jornada extraordinária, desde uma origem humilde até o reconhecimento global, inspirou a todos. O arquiteto enfatizou a importância de fazer mais com menos e de adaptar-se aos contextos locais. Talvez seja Kéré a maior personificação da atualidade do que o Bjarke quer dizer ao explicar o que é a “sustentabilidade hedonista”.

O congresso também proporcionou uma visão única sobre o papel dos arquitetos na sociedade moderna. O geólogo, professor e especialista Minik Rosen argumentou sobre a interconexão entre o ambiente construído e a natureza, destacando como tudo o que nos rodeia é, de algum modo, uma forma de construção humana. Rosen ressaltou que as ações dos arquitetos, por mais que , por vezes, eles mesmos se esqueçam, têm um impacto significativo na pegada ecológica, reforçando a importância de buscar soluções sustentáveis. Absolutamente tudo o que fazemos ocasiona uma consequência à natureza e ao que deixamos no mundo.

Um dos painéis do “Obel Awards”, prêmio dinamarquês de grande prestígio internacional na arquitetura, contou com a participação de nomes renomados, como Nathalie de Vries, cofundadora do escritório MVRDV, e Carlos Moreno, criador do conceito “The 15-minute City”. As discussões se concentraram nas soluções criativas para os desafios enfrentados pelas cidades. Nathalie destacou a importância de entender os contextos e de não acreditar que exista apenas uma única solução ou caminho para melhorias urbanas. Ela defendeu a ideia de que o foco deve estar nos sistemas urbanos, e não em soluções isoladas, sempre incorporando a ecologia.

Já Carlos Moreno, ao ser questionado sobre a viabilidade de uma implementação de economia circular nas cidades, destacou a importância de abranger todos os aspectos da vida diária , não só os de desperdício zero. Em outro painel com Mette Skjold, CEO da SLA, outro aspecto discutido, mas que ressoa com a abordagem do anterior, foi a relação entre arquitetura e natureza. Skjold destacou como a incorporação da natureza em projetos arquitetônicos pode impactar positivamente nossa saúde e criatividade, enfatizando que a natureza não deve ser apenas imitada, mimetizada, mas verdadeiramente integrada ao ambiente construído. Esse ponto, de certa forma, é algo que a arquitetura brasileira já vem incorporando com maestria há mais tempo.

Após o UIA 2023, continuo refletindo sobre a profunda influência da arquitetura na sociedade e o papel vital dos arquitetos na construção de um futuro sustentável e inclusivo. Esse congresso foi um lembrete poderoso de que a arquitetura lida com questões fundamentais que moldam nosso mundo e, embora desafiador, o trabalho do arquiteto é fundamental para criar um futuro melhor. Esse evento reforçou o compromisso de todos os arquitetos em continuar fazendo a diferença por meio da arquitetura, valorizando a autenticidade e buscando soluções inovadoras para os desafios globais.

Se há uma lição que o UIA 2023 pode deixar a nós, brasileiros, é aprender com os erros alheios. A impressão é que, na Europa, com séculos de construção à frente, os desafios são mais urgentes e as soluções visam reverter problemas, enquanto aqui ainda temos uma certa janela de oportunidade para agir, considerando que nossa cidade ainda está em constante crescimento e transformação. Mesmo em cidades densificadas como São Paulo, temos a vantagem de agir a tempo, à medida que nossas cidades ainda estão em fase de evolução. Há muito já sendo feito, mas também ainda a ser construído. Que isso seja feito de maneira consciente, planejada e integrada a natureza.  Afinal, isso importa.  Arquitetura importa.   (   )


AMANDA FERBER – ARCHITECTURE HUNTER
Reconhecida pela Feedspot como a principal entre os 125 maiores influenciadores arquitetônicos em todo o mundo, Amanda Ferber é a arquiteta fundadora do Architecture Hunter, plataforma de conteúdo cuja audiência atinge mais de 3 milhões de pessoas globalmente. Em 2018, Amanda Ferber apareceu na capa da revista italiana Beesness, conquistando o título de “a influenciadora dos arquitetos”. Em 2019, com apenas 24 anos, ela conquistou um cobiçado lugar na prestigiosa lista Forbes Under 30. Durante sua jornada acadêmica, Amanda estagiou no estúdio MK27, liderado pelo renomado Marcio Kogan, e posteriormente contribuiu para o ArchDaily, a maior plataforma de notícias de arquitetura do mundo. Amanda também atua como jurada em renomados prêmios internacionais de arquitetura e design, incluindo os Dezeen Awards, Architizer A+Awards, Architizer Vision Awards e os Loop Design Awards. Além disso, ela atua como embaixadora da Arkos e da Morpholio, uma rede norte-americana de aplicativos para arquitetos.

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